sábado, 22 de dezembro de 2007

Olá!

Hoje, posto aqui dois contos meus já publicados no jornal "A Tribuna de Petrópolis".
Boa leitura!

George Luiz

SOUZA X SOUZA

Encontrei-me há poucos dias com Fernando Soares num restaurante do Leblon. Ambos sozinhos, decidimos nos sentar à mesma mesa e almoçar juntos.
Cabe-me confessar aqui, que meu intento ao almoçar com Fernando não foi apenas usufruir de seu excelente papo. Ele é um dos três ou quatro mais famosos advogados especialistas em direito de família do país. Há pouco mais de um mês, a sociedade carioca foi submetida ao impacto do divórcio entre Silvia e Eduardo Souza. E nada, absolutamente nada das causas dessa repentina separação, filtrou-se através da impenetrável cortina de discrição das duas famílias e dos próprios protagonistas. A alegação de incompatibilidade pura e simples não convenceu ninguém. E ali estava eu sentado com o advogado de uma das partes, o marido, Eduardo.
Após bebermos bem preparados manhattans e fazermos nossos pedidos, tentei conversar sobre trivialidades. Claro que o olhar de águia de Fernando, um olhar habituado a devassar a fundo a alma humana, o fez perceber que atrás da minha conversa inconseqüente, estava minha avidez em conhecer a verdade sobre o rumoroso divórcio.
Com a diabólica inteligência de um jogador de xadrez, ele esperou que tivéssemos comido - ele, um filé de robalo com molho de alcaparras e algumas batatas cozidas e brócolis e eu, um substancioso steak au poivre - para abordar o assunto que me intrigava.
Entre um golinho e outro de um excelente café expresso, o famoso advogado iniciou, sem que eu tivesse que insistir muito, o relato do caso.
- Vou satisfazer a sua curiosidade, meu amigo, porque tenho plena confiança em você e sei que manterá total segredo sobre minhas revelações.

- Fique tranqüilo, Fernando. Nos conhecemos há suficiente tempo e com a suficiente intimidade, para você saber que pode confiar em minha palavra.
Silvia e Eduardo Souza nasceram em pontos próximos da cidade, ele no Leblon e ela, no Jardim Botânico. Estudaram em colégios diferentes e suas famílias pouco se conheciam. Silvia freqüentava a Hípica desde os seis anos de idade. Aos oito, revelou-se sua extraordinária aptidão para os concursos de salto. Seu pai, cavaleiro entusiasta e hábil, entusiasmou-se com as qualidades da garota. Homem de ótima situação financeira, não mediu gastos nem estímulo para que ela se tornasse uma brilhante amazona. Silvia era filha única, educada e meiga, estudante caprichosa. Cresceu e chegou à adolescência sem nunca ter causado decepção alguma a seus pais que a adoravam.
Eduardo, também filho único, foi uma criança tranqüila. Estudioso, sempre obtinha excelentes resultados no colégio. Seu pai, sócio do Country, fez com que o menino começasse a jogar tênis pelas mãos do velho professor Aguero, com quem ele próprio aprendera e aperfeiçoar seus drives e voleios. O menino mostrou aptidão indiscutível por esse esporte, mas no fundo do coração alimentava o desejo secreto de tornar-se um ás do automobilismo. Seus pais detestavam essa idéia e, com doce firmeza, mantiveram o filho, agora um rapaz de dezoito anos, distante desse projeto arriscado, perigoso.

Silvia e Eduardo só se conheceram na universidade. Ela estudava letras e ele engenharia, ambos na PUC. O amor entre eles aconteceu como num passe de mágica. Um dia, estavam na cantina da universidade quando seus olhares se encontraram casualmente. Dali para frente, nunca mais se largaram. Com famílias de nível idêntico, o namoro dos dois não teve que enfrentar dificuldades e o resultado não poderia ser outro, além do casamento quatro anos depois. Passaram a lua-de-mel na Europa e juntos assistiram a várias competições hípicas e dois grandes prêmios da fórmula Um. Viviam como num sonho real, uma sucessão de acontecimento felizes e pouquíssimas decepções. Os amigos adoravam aquele jovem casal que transmitia um astral maravilhoso.
Contra o evidente desejo dos pais de ambos, eles tinham decidido só ter o primeiro filho depois de alguns anos de liberdade de ação e despreocupação maior. Silvia continuava a competir na hípica, agora assistida e estimulada pelo marido e por seu pai. Eduardo jogava um tênis agradável, de ótimo estilo, sem pretensões de competir.
Um dia, Eduardo descobriu que um grupo de colegas de trabalho se reunia na casa de um deles para jogar futebol de botão. Ele gostou da idéia e achou entre suas coisas de criança, cuidadosamente guardadas por sua mãe, seu velho time. Eram botões comuns preparados com capricho, lixados, alguns sobrepostos sobre outros; dois zagueiros pesados e confiáveis, um meio de campo habilidoso e o craque do time, um botão de origem inglesa do blazer, agora fora de uso, que seu pai comprara em Londres. Foi pela primeira vez jogar com os amigos, repetiu a dose na semana seguinte e aos poucos as reuniões nas tardes de sábado tornaram-se um ritual indispensável.

Silvia encarou divertida, a nova mania do amor de sua vida. Às vezes, ele deixava de assistir suas atuações na Hípica. Mas era tão cuidadoso e carinhoso com ela, tão amoroso e desprendido na cama...
Silvia era uma jovem mulher realizada no casamento.
Uma noite, os dois chegaram atrasados num jantar de família porque Eduardo estava envolvido num torneio de futebol de botões naquele sábado. Menos de um mês depois, Eduardo voltou atrasado para um jantar que ofereciam a seus melhores amigos em casa pela mesma razão. Num outro sábado, Eduardo recusou-se a ir ao teatro ver aquela peça fabulosa que esgotava a bilheteria há meses porque estava jogando a finalíssima do torneio de verão de futebol de botões aquela noite. Silvia foi com seus pais mas na volta resolveu conversar com o marido. Aquela mania de Eduardo estava começando a prejudicar os fins de semana do casal. A data da viagem que iriam fazer a Nova Iorque se aproximava e ele tinha sugerido adiar a data por um mês, alegara que não podia perder os dois fins de semana em que iria se realizar o Rio – São Paulo de futebol de botões. Silvia argumentou, ponderou, mas Eduardo foi irredutível. Silvia comentou com sua mãe que as coisas entre ela e o marido estavam ficando um pouquinho difíceis. E então, Silvia teve a idéia que se revelaria fatal para aquele harmonioso casamento. Como Eduardo iria jogar a primeira fase do torneio em São Paulo e a data coincidia com um concurso hípico em Belo Horizonte , ela disse ao marido que não iria com ele à capital paulista, iria a Minas tomar parte na competição. Ele concordou com facilidade e aquilo foi a gota d’água para Silvia. Ela embarcou na sexta-feira de manhã, seus dois cavalos já tinham seguido antes. Ao anoitecer, Eduardo se preparou para pegar o avião para São Paulo.
Silvia era ótima para arrumar malas.
A pequena bagagem de Eduardo estava pronta. Ele foi buscar em seu armário o precioso time de botões. Na gaveta em que guardava aqueles craques sensacionais, pegou a caixa e achou-a estranhamente leve. Abriu-a e constatou a terrível verdade. Na caixa havia apenas alguns bombons e um bilhete de Silvia que dizia: “Amorzinho, estive olhando seus craques e achei que estavam todos com uma expressão muito cansada. Resolvi levar seu time de botões comigo a Belo Horizonte, esperando que todos se recuperem com o descanso e o ótimo clima. Ah! Não coma os bombons antes do jantar para não perder a fome. Beijinhos, Silvia.”

Eduardo entrou com a ação de divórcio na semana seguinte.
Fernando Soares acendeu seu cachimbo, visivelmente deliciado com minha expressão de total incredulidade.
- O casamento, meu amigo, é uma instituição da maior seriedade. Mas as pessoas são menos difíceis de fracassarem do que a gente imagina.

- Mas um torneio de futebol de botões, Fernando, acabar com um casamento de tanta harmonia e sucesso...
- As emoções humanas podem ser imprevisíveis, meu caro. O essencial é preservar a sanidade mental, mesmo que ela custe o preço de um divórcio.
Despedi-me do meu amigo e ainda refletia sobre suas palavras enquanto dirigia meu carro. O jogo de poker no apartamento do Julinho começava as três da tarde. Concentrei-me no trânsito e apertei um pouco mais o acelerador.

George Luiz

UM CHATO

Os quatro amigos olhavam o corpo estendido na areia. Fabio tinha morrido afogado. E agora o mar o devolvera à praia pouco freqüentada. Na morte, como na vida, ele parecia insignificante. Estava intacto. Nada das órbitas vazias de olhos devorados por caranguejos. Muito pouco inchado, seu rosto não mostrava sinais de agonia. Parecia dormir um sono tranqüilo, sem sonhos ou pesadelos.
- Só mesmo esse chato pra nos obrigar a sair da cama a essa hora num sábado.
- É mesmo. Mas você sabe, Rodrigo, que o Fabio sempre foi um inconveniente.
- Inconveniente? Ele era um porre mesmo.
- E pelo jeito continua sendo, comentou Lucas.
- Gente, o cara tá morto...
- E daí, Mario? Morto mas sem deixar de ser um tremendo chato.
- Vamos ser mais cristãos. Como é aquela citação latina?
- De mortuis nihil nisi bonum? Dos mortos falar só nas qualidades?
- É, você continua a ser o melhor aluno de latim da sua turma do Santo Inácio, Pedro.
- Será que o rabecão vai custar muito a chegar? Ainda não comi quase nada esta manhã.
- E quem será que informou a polícia que nós conhecíamos o cara?
- Ora, Lucas num lugar pequeno assim todo mundo sabe de tudo.
- Olha lá aquelas sortudas. Sentadas na varanda jogando buraco, comendo biscoitos e bebendo suco de laranja gelado.
- E nós aqui neste sol, tomando conta de um chato desses.
- Nossa, acho que ele mexeu uma das mãos.
- Deixa de ser bobo, Pedro. Isso é ilusão de ótica. Acontece nos velórios também. Tou me lembrando é do rolo que esse cara arrumou e que acabou com o casamento da Lucia e do Paulo.
- Foi nas bodas ouro dos pais da Ritinha, né? Na recepção depois da missa?
- Isso mesmo. Esse porre aí fez a gentileza de comentar que tinha visto o Paulo saindo de um motel com a Lucia.
- Só que não era a Lucia que estava com ele. O miserável além de tudo era míope.
Os outros três caíram na gargalhada.
- Não acredito, Juliana, aqueles quatro estão rindo às gargalhadas junto do corpo do Fabio.
- Deve ser por causa do seu marido. Ele deve ter contado uma de suas piadas de português. Ou então uma daquelas imitando uma bicha falando.
- O Rodrigo? Será que ele não respeita nem os amigos mortos?
- Ah, mas o Fabio não está ouvindo nada...
- Será? E se a alma dele ainda estiver junto do corpo?
- Para de dizer bobagens e descarta logo. Tou quase batida, vê se presta mais atenção no jogo.
- Calma, Márcia, estamos ganhando por mais de quatrocentos pontos.
- Que coisa! O Mario deu um chute na bunda do Fabio!
- Ah, deixa ele, coitadinho. Ele sempre teve vontade de fazer isso quando o Fabio estava vivo...
- Que coisa, Patrícia você ainda aprova essa atitude desrespeitosa do teu marido?
- Vocês conhecem - a voz de Renata soou descuidada - vocês conhecem a estória da paixão que a Fernanda teve pelo Fabio?
- Ah, por favor, conta...
- Pois é, a Fernanda, aquele mulherão pra mesa de trinta talheres e taças de cristal da Boemia, se apaixonou perdidamente por ele.
- É por essas e outras que mulheres nunca deviam ser psicanalistas.
- Fica quieta, Juliana, deixa a Renata contar a estória.
- Tudo bem, continuou Renata. Foi há uns três anos atrás. A Fernanda fez um cerco incrível a esse bolha. No início ele nem percebeu que ela só faltava sentar no colo dele nos nossos jantares assim mais informais. Mas ela é persistente e chegou a um ponto em que ele não teve mais como não ver o que estava acontecendo.
- E aí?
- Aí, ela resolveu atacar pra valer e levou o Fabio pro apartamento dela dizendo, imagina que coisa, que queria a opinião dele sobre a nova decoração e uma escultura que ela tinha comprado.
- Ah, eu sei qual é. Uma abstrata em bronze que parece uma vagina.
- Essa mesma. Acho que ela levava, na certa, que quando o Fabio estivesse sozinho com ela no apartamento e visse a peça, não resistiria e a levaria pra cama. E, além disso, ela tinha vestido aquela blusa preta com quase a metade dos seios de fora.
- E funcionou?
- Bom, a Rutinha, pra quem a Fernanda contou tudo em detalhes, me descreveu a cena assim...
- Vai, conta logo...
- Diz que a Fernanda agarrou o Fabio e arrastou o cara pro quarto. Tirou toda a roupa dele e o empurrou para a cama. E aí, ao som de um blues instrumental, fez um strip-tease bem lento na frente do idiota embasbacado. Diminuiu ligeiramente as luzes e se deitou numa pose provocante. Imagina aquela deusa morena nua, com os longos cabelos espalhados pelo edredom. O cara hesitou um instante mas não resistiu e avançou.
- E aí?
- Aí, quando ela esperava ansiosa pra se sentir finalmente penetrada, ele deu um berro e caiu no chão.
- Um berro?
- É, um berro de dor. Tinha tido uma câimbra violenta na parte de trás da coxa esquerda.
As outras três começaram a rir descontroladamente. Juliana deixou suas cartas caírem no chão e Patrícia saiu correndo para não fazer xixi na calcinha. Ria muito.
Na praia, Pedro comentou com os amigos:
- Tou dizendo a vocês. A gente aqui nessa espera burra e elas lá se divertindo como loucas.
- Pera, acho que é o carro da polícia chegando ali. Deve ser a perícia pra liberar o corpo.
- Até que enfim, tou louco pra comer um misto quente.
- E eu pra tomar um chocolate gelado.
- Bom dia, senhores, sou o delegado Botelho. Quero antes de tudo lhes agradecer por sua cooperação. Espero que a nossa demora em chegar não tenha sido muito grande.
- Tudo bem delegado, não se preocupe com isso.
- Lamento muito por essa morte infeliz de seu amigo.
- Pois é delegado um amigo muito querido. Estávamos conversando aqui sobre sua inteligência e sua empatia. Uma perda irreparável para nós e tantos outros que eram seus amigos fiéis e admiradores.
- Bem, não vou mais importunar os senhores.
No enterro, quando o padre dizia algumas palavras de consolo à família, Patrícia teve um súbito ataque de riso. As pessoas ficaram estarrecidas, mas Renata explicou.
- Não reparem. Ela está muito chocada. Não está conseguindo se controlar direito. Como todos sabem ele era uma figura inesquecível, insubstituível mesmo.
Na lápide do túmulo de Fabio pode ser lida uma inscrição inspirada:
“Morreu com o viveu, docemente, tragado pelo mar calmo. Foi querido por todos os que tiveram o privilégio de conhecê-lo.”

George Luiz

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Alguns de meus trabalhos

Olá!

Estou divulgando hoje mais alguns trabalhos, entre aquarelas e óleos. Também disponibilizo o catálogo-pôster da exposição realizada em São José dos Campos - SP em 2005.
Por fim, uma foto "nos bastidores": em meu atelier, no Rio e em outra, iniciando mais um óleo, tendo ao fundo a beleza e a tranqüilidade da serra de Petrópolis.

Grande abraço,

George Luiz
Posted by Picasa
Posted by Picasa
Posted by Picasa
Posted by Picasa
Posted by Picasa
Posted by Picasa
Posted by Picasa

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

A arte de George Luiz




Aquarelas e óleos de George Luiz




Olá! Seja bem-vindo ao meu blog!

Sou carioca mas moro atualmente em São Paulo. Para fugir de toda essa agitação, tenho um belo "refúgio" na região serrana do Rio.

Sou artista plástico há muitos anos, tenho obras em vários museus na Europa, Estados Unidos e América do Sul.

Escrevo contos e sou colunista em jornais de Petrópolis - RJ.

Quero, atráves desse espaço, apresentar meus trabalhos, fazer comentários sobre atualidades e compartilhar idéias e opiniões.

Será sempre um prazer receber sua visita!


Grande abraço,



George Luiz