Os quatro amigos olhavam o corpo estendido na areia. Fabio tinha morrido afogado. E agora o mar o devolvera à praia pouco freqüentada. Na morte, como na vida, ele parecia insignificante. Estava intacto. Nada das órbitas vazias de olhos devorados por caranguejos. Muito pouco inchado, seu rosto não mostrava sinais de agonia. Parecia dormir um sono tranqüilo, sem sonhos ou pesadelos.
- Só mesmo esse chato pra nos obrigar a sair da cama a essa hora num sábado.
- É mesmo. Mas você sabe, Rodrigo, que o Fabio sempre foi um inconveniente.
- Inconveniente? Ele era um porre mesmo.
- E pelo jeito continua sendo, comentou Lucas.
- Gente, o cara tá morto...
- E daí, Mario? Morto mas sem deixar de ser um tremendo chato.
- Vamos ser mais cristãos. Como é aquela citação latina?
- De mortuis nihil nisi bonum? Dos mortos falar só nas qualidades?
- É, você continua a ser o melhor aluno de latim da sua turma do Santo Inácio, Pedro.
- Será que o rabecão vai custar muito a chegar? Ainda não comi quase nada esta manhã.
- E quem será que informou a polícia que nós conhecíamos o cara?
- Ora, Lucas num lugar pequeno assim todo mundo sabe de tudo.
- Olha lá aquelas sortudas. Sentadas na varanda jogando buraco, comendo biscoitos e bebendo suco de laranja gelado.
- E nós aqui neste sol, tomando conta de um chato desses.
- Nossa, acho que ele mexeu uma das mãos.
- Deixa de ser bobo, Pedro. Isso é ilusão de ótica. Acontece nos velórios também. Tou me lembrando é do rolo que esse cara arrumou e que acabou com o casamento da Lucia e do Paulo.
- Foi nas bodas ouro dos pais da Ritinha, né? Na recepção depois da missa?
- Isso mesmo. Esse porre aí fez a gentileza de comentar que tinha visto o Paulo saindo de um motel com a Lucia.
- Só que não era a Lucia que estava com ele. O miserável além de tudo era míope.
Os outros três caíram na gargalhada.
- Não acredito, Juliana, aqueles quatro estão rindo às gargalhadas junto do corpo do Fabio.
- Deve ser por causa do seu marido. Ele deve ter contado uma de suas piadas de português. Ou então uma daquelas imitando uma bicha falando.
- O Rodrigo? Será que ele não respeita nem os amigos mortos?
- Ah, mas o Fabio não está ouvindo nada...
- Será? E se a alma dele ainda estiver junto do corpo?
- Para de dizer bobagens e descarta logo. Tou quase batida, vê se presta mais atenção no jogo.
- Calma, Márcia, estamos ganhando por mais de quatrocentos pontos.
- Que coisa! O Mario deu um chute na bunda do Fabio!
- Ah, deixa ele, coitadinho. Ele sempre teve vontade de fazer isso quando o Fabio estava vivo...
- Que coisa, Patrícia você ainda aprova essa atitude desrespeitosa do teu marido?
- Vocês conhecem - a voz de Renata soou descuidada - vocês conhecem a estória da paixão que a Fernanda teve pelo Fabio?
- Ah, por favor, conta...
- Pois é, a Fernanda, aquele mulherão pra mesa de trinta talheres e taças de cristal da Boemia, se apaixonou perdidamente por ele.
- É por essas e outras que mulheres nunca deviam ser psicanalistas.
- Fica quieta, Juliana, deixa a Renata contar a estória.
- Tudo bem, continuou Renata. Foi há uns três anos atrás. A Fernanda fez um cerco incrível a esse bolha. No início ele nem percebeu que ela só faltava sentar no colo dele nos nossos jantares assim mais informais. Mas ela é persistente e chegou a um ponto em que ele não teve mais como não ver o que estava acontecendo.
- E aí?
- Aí, ela resolveu atacar pra valer e levou o Fabio pro apartamento dela dizendo, imagina que coisa, que queria a opinião dele sobre a nova decoração e uma escultura que ela tinha comprado.
- Ah, eu sei qual é. Uma abstrata em bronze que parece uma vagina.
- Essa mesma. Acho que ela levava, na certa, que quando o Fabio estivesse sozinho com ela no apartamento e visse a peça, não resistiria e a levaria pra cama. E, além disso, ela tinha vestido aquela blusa preta com quase a metade dos seios de fora.
- E funcionou?
- Bom, a Rutinha, pra quem a Fernanda contou tudo em detalhes, me descreveu a cena assim...
- Vai, conta logo...
- Diz que a Fernanda agarrou o Fabio e arrastou o cara pro quarto. Tirou toda a roupa dele e o empurrou para a cama. E aí, ao som de um blues instrumental, fez um strip-tease bem lento na frente do idiota embasbacado. Diminuiu ligeiramente as luzes e se deitou numa pose provocante. Imagina aquela deusa morena nua, com os longos cabelos espalhados pelo edredom. O cara hesitou um instante mas não resistiu e avançou.
- E aí?
- Aí, quando ela esperava ansiosa pra se sentir finalmente penetrada, ele deu um berro e caiu no chão.
- Um berro?
- É, um berro de dor. Tinha tido uma câimbra violenta na parte de trás da coxa esquerda.
As outras três começaram a rir descontroladamente. Juliana deixou suas cartas caírem no chão e Patrícia saiu correndo para não fazer xixi na calcinha. Ria muito.
Na praia, Pedro comentou com os amigos:
- Tou dizendo a vocês. A gente aqui nessa espera burra e elas lá se divertindo como loucas.
- Pera, acho que é o carro da polícia chegando ali. Deve ser a perícia pra liberar o corpo.
- Até que enfim, tou louco pra comer um misto quente.
- E eu pra tomar um chocolate gelado.
- Bom dia, senhores, sou o delegado Botelho. Quero antes de tudo lhes agradecer por sua cooperação. Espero que a nossa demora em chegar não tenha sido muito grande.
- Tudo bem delegado, não se preocupe com isso.
- Lamento muito por essa morte infeliz de seu amigo.
- Pois é delegado um amigo muito querido. Estávamos conversando aqui sobre sua inteligência e sua empatia. Uma perda irreparável para nós e tantos outros que eram seus amigos fiéis e admiradores.
- Bem, não vou mais importunar os senhores.
No enterro, quando o padre dizia algumas palavras de consolo à família, Patrícia teve um súbito ataque de riso. As pessoas ficaram estarrecidas, mas Renata explicou.
- Não reparem. Ela está muito chocada. Não está conseguindo se controlar direito. Como todos sabem ele era uma figura inesquecível, insubstituível mesmo.
Na lápide do túmulo de Fabio pode ser lida uma inscrição inspirada:
“Morreu com o viveu, docemente, tragado pelo mar calmo. Foi querido por todos os que tiveram o privilégio de conhecê-lo.”
George Luiz
sábado, 22 de dezembro de 2007
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